O SIGILO MAÇÔNICO

Quando surge o assunto Maçonaria em círculos de debates fora da Ordem Maçônica, é comum que as pessoas que não têm familiaridade com o tema expressem ideias equivocadas sobre as práticas que adotamos em nossas atividades. Em primeiro lugar, é difícil encontrar um não maçom que possa dar uma definição razoável sobre o que é Maçonaria. Geralmente, as explicações vêm carregadas de estereótipos e lendas sobre a ordem maçônica, sobretudo por causa do caráter sigiloso de nossas reuniões.

Que a Maçonaria não é secreta, isso não é novidade. Seria redundante insistir em um ponto já amplamente esclarecido. Mas então qual é o segredo da Maçonaria? Sobre o que recai o sigilo maçônico?

As localizações das sedes dos grandes orientes e grandes lojas, bem como dos templos e sedes das lojas, sempre foram publicamente conhecidas e, inclusive, identificadas por símbolos em suas fachadas. A maioria possui, inclusive, personalidade jurídica com estatutos e regimentos próprios que constam em registros públicos.

É evidente, porém, que apesar disso as reuniões maçônicas ocorrem sempre em sigilo. E por que a Maçonaria mantém tanto sigilo sobre suas atividades no interior das Lojas? Ora, antes de tudo porque é seu direito, pois sendo uma organização livre e independente, pode desenvolver suas atividades da forma que melhor lhe aprouver, desde que respeitadas as leis vigentes em cada país. Todavia, o principal motivo é que as reuniões são mantidas sigilosas para preservar os modos tradicionais de reconhecimento.

Todo maçom está obrigado, por força de juramento, a não revelar os modos de reconhecimento, e isso não admite concessões. Os modos cerimoniais para conferir a qualidade de maçom de alguém normalmente não devem ser usados fora do contexto das reuniões maçônicas. Além disso, as partes das sessões que não são necessariamente relativas aos modos de reconhecimento entre maçons devem igualmente ser mantidas privadas, a fim de preservar o impacto dessas cerimônias sobre os candidatos.

É possível relacionar essa prática, em parte, ao ambiente das corporações de ofício da Idade Média, nas quais determinados conhecimentos técnicos, formas de admissão, sinais de pertencimento e regras internas eram reservados aos membros do ofício. Os maçons operativos guardavam segredo em torno de suas reuniões porque era nelas que eram comunicadas a “palavra do maçom”, os sinais secretos e os segredos profissionais — tais como as proporções dos projetos de catedrais, sistema de fechamento de arcos e abóbadas, proporção do afinamento de pilastras, etc. Naquela época, a sociedade era organizada em torno do clero e da nobreza, e as pessoas conviviam em feudos e não tinham liberdade para transitar de um lugar para outro sem pagar impostos. Entretanto, a classe dos construtores — os maçons — gozava de isenção de impostos para poder se deslocar pela Europa. Por isso, ao se oficializar a elevação de um aprendiz a companheiro, tais segredos só eram transmitidos sob juramento, pois deles dependia o sucesso profissional do grupo.

Vale dizer que a “palavra do maçom” e os sinais secretos eram usados para verificar se aqueles que estavam a participar de uma reunião eram realmente membros da guilda e pedreiros de ofício. Por isso, dada a importância social que os maçons operativos detinham, esses conhecimentos eram guardados a sete chaves e só se transmitiam sob segredo.

Vemos então que o “segredo maçônico” em época alguma teve a intenção de encobrir tramas, conspirações, sacrifícios e holocaustos, adorações, ocultismos, atividades ilegais ou qualquer outra elucubração a que o imaginário popular se enverede a especular.

Manter sigilo sobre as atividades institucionais está longe de ser algo detestável. A própria Igreja Católica, por exemplo, faz uso dessa prerrogativa na eleição do papa, onde as portas da sala onde é feita a eleição são lacradas por fora, e na confissão. Tais atividades não configuram ilegalidade por serem sigilosas. Assim é com a Maçonaria, é um direito de cada instituição.

Voltando à questão inicial sobre qual é o segredo da Maçonaria, poder-se-ia então responder, de uma forma simples, que o sigilo maçônico gira em torno dos modos de reconhecimento e dos cerimoniais, e estes funcionam como elementos de união entre os irmãos, pois sabe-se que quando pessoas compartilham um segredo, qualquer que seja a sua natureza, cria-se entre elas um forte vínculo. Nesse sentido, o segredo maçônico aparece como reserva de pertencimento, reconhecimento e fidelidade, residindo na obrigação moral de conservar inviolável aquilo que foi recebido sob juramento.

Fontes de Consulta

United Grand Lodge of England. Information for the Guidance of Members of the Craft, março de 2024, seção “Masonic Secrets”, p. 39. Disponível em: https://www.ugle.org.uk/sites/default/files/media/file/information-booklet-mar2024_download.pdf

PETERS, Ambrósio. Maçonaria – História e Filosofia. 2ª Ed. Academia Paranaense de Letras Maçônicas: Curitiba, 1999.