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O CAMINHO DAS PEDRAS

Ao romper da manhã, quando o orvalho ainda se desfazia sobre o vale, os talhadores de pedra já se encontravam nas imediações da pedreira. O frescor da manhã era agradável, mas no horizonte o sol permeava as poucas nuvens no céu e seus raios se projetavam sobre o topo do paredão rochoso que os encarava para mais um dia de trabalho, anunciando que o dia seria quente e exaustivo.

Os cabouqueiros — como eram chamados os trabalhadores que faziam a extração das pedras na pedreira — eram uma das classes de operários que ali trabalhavam. Apesar de numerosos, eram trabalhadores pouco instruídos e realizavam as tarefas mais árduas e braçais no canteiro. Por isso, tinham pouco prestígio dentre seus companheiros. Apesar disso, sua função era indispensável para a consecução da grandiosa obra que se erigia próximo dali.

No canteiro da obra, outras classes de trabalhadores da pedra empreendiam seus esforços para erguer um opulento palácio, digno de um rei. Um pequeno grupo liderava a construção e elaborava o traçado da planta do palácio e os planos de execução. Estes mestres eram bastante instruídos e possuíam grande conhecimento das técnicas de construção. Designavam as tarefas para outros dois grupos, cuja função, não menos importante, era talhar e lavrar as pedras brutas retiradas das minas e transportadas até ali, conferindo-lhes o formato cúbico necessário para o justo e perfeito assentamento nas paredes da construção.

Na pedreira, os cabouqueiros se dividiam, ainda, em dois grupos. O primeiro deles era composto pelos trabalhadores que executavam a árdua tarefa de escavar e retirar os blocos de pedra bruta das minas. Eles eram chamados de canteiros, isto é, aquele que atua no ofício da cantaria. Do segundo grupo faziam parte os operários que transportavam os blocos informes desde a pedreira até o canteiro da obra do palácio, para que fossem trabalhados pelos construtores do palácio. Estes eram chamados de cowans.

Conduzindo os blocos de pedra recém extraídos da pedreira até a obra do palácio, os cowans equilibravam o peso dos blocos sobre os ombros e repetiam indefinidamente o caminho que ligava a pedreira às áreas de trabalho. Passavam de cá para lá tantas vezes ao dia, que a estafa da tarefa não os motivava a prestar atenção no que acontecia ao redor. Além disso, não eram muito prestigiados dentre os operários da obra, e quando sua presença no canteiro se fazia notar além do necessário, notavam que sua proximidade não era bem-vinda, como se estivessem sempre a um passo de ultrapassar um limite que não sabiam como explicar. Sua função, entre todos aqueles homens, se resumia tão somente à árdua tarefa de transportar as pedras que outros, mais qualificados que eles, iriam transformar. Não lhes cabia talhar, nem decidir medidas ou formas.

Havia, entre os cowans, um que, embora submetido ao mesmo esforço e à mesma rotina dos demais, não atravessava o caminho com o olhar tão baixo quanto os outros. Sem deixar de cumprir a sua tarefa, por vezes demorava um pouco mais ao depositar os blocos nas áreas da obra, como se aquele breve instante lhe permitisse observar algo que escapava aos demais. Não saberia dizer o que buscava, e talvez nem se desse conta disso com clareza, mas seu olhar, ainda que discreto, já não se limitava ao chão que percorria.

Enquanto os outros se apressavam em retornar à pedreira, Ezra, como o chamavam, vez ou outra, permitia-se acompanhar o trabalho daqueles que recebiam as pedras que carregava. Via o golpe do ferro contra a rocha, o ajuste paciente das faces, e, sem compreender inteiramente o que se passava, começava a perceber que havia ali algo mais do que simples esforço.

Sob o comando de um dos capatazes dos mestres da obra, os blocos de pedra recebiam o primeiro desbaste, que era realizado pela primeira classe de operários, que incluía também aqueles que estavam em fase de aprendizado no ofício. Os capatazes dos mestres, chamados de vigias ou vigilantes, supervisionavam os aprendizes e estavam sempre atentos ao que acontecia nas áreas de trabalho e nos arredores. Por isso, sempre que um deles notava que Ezra permanecia além do necessário no canteiro, tratavam logo de pô-lo novamente no caminho de volta para a pedreira.

Certa vez, cuidando para passar despercebido aos olhos atentos do vigilante, conseguiu permanecer além da conta no canteiro observando o trabalho dos aprendizes. Notara que eles eram hábeis no uso de suas ferramentas, o maço e o cinzel. Fazia semelhança desses utensílios com os alviões e martelos pontiagudos que os canteiros usavam nas minas na extração dos blocos de pedra, só que aqui o trabalho era muito mais delicado — e as ferramentas muito menores também. Os aprendizes, apesar do nome, manejavam o maço e o cinzel com firmeza e cuidado. Os golpes que davam sobre as pedras, seguiam um ritmo próprio e não eram guiados apenas pela força. Ezra percebeu que havia entre os aprendizes certos operários mais hábeis que outros. De vez em quando, algumas frases se deixavam ouvir, ditas por estes aprendizes mais experientes, como parte do próprio trabalho de instrução dos mais novos:

— Não deixeis excesso onde já se anuncia a forma, e não façais do golpe um gesto sem sentido.

Essas exortações surgiam principalmente quando os menos experientes danificavam os blocos ao darem golpes a esmo ou com demasiada força. Alguns sabiam exatamente onde desbastar a pedra, mas golpeavam o maço contra o cinzel com muita força, causando à pedra um defeito. Outros, por outro lado, eram mais sutis nos golpes, mas tinham dificuldade de saber onde posicionar o cinzel para obter o melhor resultado. Era aí que se manifestava a diferença entre a habilidade dos mais experientes e a dos mais novos.

Ezra seguia a azáfama de sua sina, pois embora houvesse milhares de trabalhadores tanto na pedreira quanto no canteiro da obra, não havia tempo a perder. Entretanto, isto não o impedia de guardar o que via e escutava. Noutra oportunidade, notara que o final do trabalho dos aprendizes se dava quando as pedras possuíam, mais ou menos, a forma de um cubo ou de um paralelepípedo. Embora as faces não fossem lisas ou aplainadas, a pedra talhada tinha aspecto muito diferente do que era ao chegar ali, quando não passava de um bloco disforme. Antes de concluir o desbaste, um dos aprendizes mais experientes aproximava da pedra uma régua lisa, sem marca alguma, apoiando-a sobre a superfície, ainda irregular, como se buscassem ali um primeiro alinhamento, uma primeira conferência, antes de qualquer medida exata.

Sendo Ezra uma espécie de ‘intruso’ na área da obra, nada lhe é explicado, e ele também não pergunta, pois sabia que isso poderia trazer problemas não só para ele, mas também para os outros cowans de sua classe. Certa vez, uma forte chuva atingiu o canteiro, e um dos cowans, para se proteger, se recolheu com os operários da obra sob algumas coberturas improvisadas. Logo que notaram que ele estava ali, os homens o colocaram debaixo de uma fresta pela qual escorria água do telhado. O que lhe causara mais incômodo não foi o volume de água, mas a insistência da goteira que caía sempre no mesmo ponto.

Com o passar dos dias, Ezra continuava a cumprir sua função, levando pedras desde a pedreira até a obra. Sempre que podia, permanecia um pouco mais para notar detalhes que antes lhe escapavam, como se o trabalho dos outros começasse a lhe dizer algo que ainda não conseguia traduzir. Certa manhã, ao entregar aos aprendizes os primeiros blocos de pedra, percebeu que um daqueles que eram dos mais experientes não estava mais entre eles. Se perguntara o que houvera acontecido. Será que havia sido dispensado? Ou pior, será que alguma moléstia o teria acometido? Sua mente deu àquele homem vários destinos, alguns até um pouco terríveis. Sentiu alívio, porém, quando o viu em outra frente de trabalho, mais adiante. Não que aquele homem soubesse quem ele era, tampouco tivessem alguma fez trocado alguma palavra. Porém, Ezra prestava particular atenção nele por causa das orientações que proferia aos aprendizes mais novos, ensinando-os como realizar o trabalho de desbaste das pedras com maior precisão.

Neste dia, percebeu que havia uma quantidade maior de pedras talhadas finalizadas pelos aprendizes do que de costume. Parecia que os operários que lavravam as pedras na etapa seguinte estavam em ritmo mais lento do que os primeiros. Ezra, então, tratou de perambular pelas outras áreas da obra, a fim de tentar entender o que ocorria. Logo adiante, se deparou com dois homens utilizando uma alavanca para mover um grande bloco de pedra que estava no caminho em direção à construção do palácio. Olhavam para o bloco e se entreolhavam em seguida. Sussurravam e apontavam para algumas pedras no solo enquanto manuseavam a alavanca, como se estivessem tentando decidir como prosseguir com a tarefa. Após alguns instantes pareciam ter decidido a estratégia. Trouxeram daqui e dali alguns blocos menores e os posicionaram milimetricamente ao lado do grande bloco de pedra. Ezra olhava para aquela cena certo de que para mover um bloco daquele tamanho seriam necessários pelo menos uma dúzia de homens, e que seria impossível movê-la com a força de apenas dois como tentavam aqueles operários. Porém, após ajustarem os blocos de apoio e posicionarem a alavanca em um ponto específico, Ezra viu o bloco se mover, quase que sem esforço aparente. Os dois homens fizeram mover um peso que antes parecia impossível deslocar. Ainda espantado, ouviu-os dizer:

— Não é a força que resolve, mas o modo como a aplicais.

Tão logo o bloco foi deslocado para fora do caminho, o trabalho de preparação das pedras tomou força e vigor novamente, como se aquela grande massa informe fosse um obstáculo ao progresso da obra. Dada a perspicácia daqueles dois homens, Ezra supôs que não poderiam ser eles da mesma classe que os aprendizes, cujo trabalho acompanhara durante algumas semanas. Eles certamente possuíam mais habilidade no trabalho com a pedra do que os aprendizes e, além disso, usavam certos utensílios que não vira os aprendizes usando, embora ainda utilizassem o maço e o cinzel.

A fim de conseguir descobrir algo mais, tratou logo de ajudar no trabalho de transporte das pedras talhadas que se amontoaram no canteiro dos aprendizes até o canteiro onde aqueles homens trabalhavam. Observava com atenção o cuidado que tinham na conferência das pedras talhadas, verificando as imperfeições que precisavam ser corrigidas. De maço e cinzel em mãos, iniciavam o laborioso trabalho de acabamento das pedras, e conforme avançavam, os blocos cúbicos com faces alisadas iam surgindo. Notara que aquele grupo parecia muito mais unido que o dos aprendizes, pois frequentemente os ouvia chamar uns aos outros por companheiro. Era assim que se designavam e também era assim que via os mestres arquitetos se dirigir a eles.

Conforme progrediam no trabalho nas pedras cúbicas, utilizavam constantemente de um esquadro para conferir a perpendicularidade entre as faces do bloco. Usavam também um uma espécie de fio suspenso com um peso na extremidade. Deixavam-no descer livremente junto às faces do bloco para conferir se estavam no prumo. Se utilizavam também de uma régua graduada para conferir a justa medida de cada bloco. Não tinham pressa para terminar o trabalho, pois sempre buscavam com que os blocos ficassem perfeitamente cúbicos e sem imperfeições.

— Se não respondeis ao ângulo, a pedra não serve para ser assentada — diz um deles, sem pressa.

Ezra acompanha as cenas com atenção crescente, sempre se esquivando das vistas dos vigilantes. Não era comum ver cowans nessa área do canteiro da obra, mas o risco valia à pena. Percebia que o trabalho dos companheiros já não se tratava apenas de retirar os excessos como faziam os aprendizes, mas de fazer com que cada parte se relacionasse com algo que não está na própria pedra. Os homens que vira movendo o grande bloco de pedra com uma alavanca e os companheiros cujo cuidadoso trabalho observava, fizeram-no perceber que havia grande diferença entre aplicar força, insistir e saber onde agir.

Ao final do dia, seu corpo estava cansado, porém, em sua mente ficaram marcadas as impressões que levara consigo. No alojamento, observava o comportamento impolido dos cabouqueiros, homens rudes, e de pouca instrução que, apesar do importante trabalho que desempenhavam para a realização da construção do palácio, muitas vezes prejudicavam a si mesmos por não pensarem na melhor forma de executar suas tarefas. Era comum vê-los na pedreira desferindo golpes a esmo contra o paredão de pedra, como que se o seu trabalho fosse demolir aquele rochedo, e não extrair dele blocos de pedra que pudessem ser trabalhados adequadamente. Frequentemente estraçalhavam bons blocos de pedra porque usavam demasiada força com o alvião e nos lugares errados. Ezra pensou que se aqueles homens usassem uma abordagem parecida com a dos aprendizes, que observavam a pedra com atenção antes de desferir o golpe no cinzel com o maço, poderia ser mais bem-sucedidos no trabalho de extração das pedras das minas. Cansariam bem menos também se, tal como os dois homens que moveram aquele enorme bloco de pedra com a alavanca, percebessem que apenas a força no cabo do alvião não resolve tudo. Entretanto, Ezra era um cowan, menos qualificado ainda que os canteiros, por isso jamais se atreveria a aconselhar os cabouqueiros em como tornar mais brandas as suas tarefas.

Dias… Semanas… Meses se passaram e a obra do suntuoso palácio tomava forma. Já era possível observar que vários detalhes arquitetônicos estavam bem definidos. Na parte interna do palácio, ainda havia muito trabalho a se fazer. Mas quem o observava de fora, se vislumbrava com a beleza da obra. Os mestres arquitetos que elaboraram seus planos de construção, com certeza estavam sendo muito bem-sucedidos em sua tarefa.

A primeira coisa que chamava a atenção era a entrada do edifício. Havia uma larga escadaria cujos degraus estavam divididos em três lances. O primeiro tinha três degraus; o segundo, cinco; e o terceiro, sete. Nas extremidades da escadaria foram colocadas várias colunetas caneladas com um entablamento simples, sem triglifos ou gutas, e ladeavam todo o acesso até a entrada principal. A enorme porta de entrada estava colocada entre duas grandes colunas que ornamentavam o pórtico composto ainda por um frontão triangular sobre elas.

A primeira vez que Ezra viu a construção de perto, ficou maravilhado. Jamais imaginara que uma obra tão bela pudesse existir. Ficara feliz em ter podido contribuir de alguma forma para erigir aquele palácio, ainda que somente carregando pedras para lá e para cá. Tinha vontade, agora, de vê-lo por dentro, mas sabia que essa não seria uma tarefa fácil. O canteiro onde trabalhavam os aprendizes e os companheiros no preparo das pedras estava sempre sob os olhos atentos dos vigilantes, porém no palácio, além dos vigilantes, havia dois guardas que ficavam postados junto a porta principal. Ficavam próximos e se comunicavam constantemente, mas um deles sempre ficava na parte interna enquanto o outro, na externa. Quando precisavam que algum recado fosse entregue, os mestres arquitetos enviavam mensageiros aos diversos cantos do canteiro, que as entregavam somente aos vigilantes. E assim a obra continuava.

Nos dias seguintes, a única coisa na qual conseguia pensar era em como conseguiria passar pelos guardas para que pudesse ver como a obra estava por dentro. Nenhum cowan ou canteiro podia acessar aquela área, e se fosse pego as coisas ficariam feias para ele. Um dia prestou mais atenção na movimentação dos operários na obra do palácio, e percebeu que somente os mestres arquitetos e alguns companheiros participavam das atividades de construção dentro do edifício. Percebera, também, que os guardas frequentemente interpelavam alguns companheiros e eles então cochichavam entre si alguma coisa. Depois disso, os guardas os deixavam passar. Outros companheiros, talvez pelos guardas já estarem familiarizados com eles, não eram abordados e circulavam livremente no canteiro. O que significava aquilo? Pensava Ezra, cada vez mais intrigado e curioso. Uma coisa que ainda não havia se dado por conta, é que todos os trabalhadores da pedra, tanto os aprendizes quanto os companheiros, utilizavam uma espécie de avental sobre o ventre para protegê-los dos estilhaços de pedra durante o desbaste. Ocorreu a ele, quase que como um estalo, que se conseguisse um avental daquele e se colocasse entre os companheiros talvez conseguisse passar pelos guardas. Entretanto, sabia que a chance de ser pego era muito grande. E se o guarda perguntasse aquilo que perguntava a todos os outros? Ele não saberia a resposta e seria barrado, com certeza. Quem sabe até se metesse em encrencas. Precisava encontrar um modo de não ser abordado pelos guardas.

No outro dia, apareceu na obra do palácio com um pedaço de couro branco, amarrado na cintura, muito parecido com os aventais que usavam os companheiros. Agora ele só precisava estar atento a uma oportunidade e, pronto! Conseguiria entrar para ver a obra por dentro. Continuou a trazer as pedras da pedreira durante o dia, mas sempre prestando atenção em alguma movimentação que lhe fosse favorável. De repente, viu um grupo grande companheiros movendo uma grande peça de bronze, em formato côncavo, em direção ao palácio. Quando chegaram ao pé da escadaria, não conseguiram seguir adiante porque o peso era muito grande e precisariam pensar em alguma estratégia diferente para chegar até o topo. Começaram a chamar outros companheiros que estavam nos arredores para que os ajudassem a mover aquela grande peça de bronze. Esta era a oportunidade que Ezra estava esperando, era a sua chance! Rapidamente se pôs em direção da escadaria, abaixou a cabeça, e se postou no lado da peça pronto para fazer força e ajudar a levar o ornamento para dentro do palácio. Vários companheiros também vieram para ajudar. Ergueram a peça e colocaram-se escada acima até chegar na entrada do palácio. O guarda externo que ali estava sabia que devia interpelar os companheiros para averiguar se poderiam entrar na obra, mas dada a situação em que todos estavam fatigados pelo esforço que faziam para carregar aquela peça, deu passagem ao grupo esfalfado, e Ezra conseguiu o que queria, havia entrado no palácio!

Ali organizavam-se vários grupos de operários, alguns cuidando dos ornamentos e outros ainda nas etapas de soerguimento de paredes. Um pouco adiante, um outro grupo trabalhava já com as pedras em posição. Entre um bloco e outro, espalhavam uma camada de argamassa, ajustando o contato com uma ferramenta de lâmina curta e cega, que deslizava sobre a superfície com firmeza controlada. Com a trolha, os companheiros assentavam, assim, as pedras, pressionando-as no lugar certo, e depois percorriam as juntas preenchendo os vazios e suavizando as irregularidades que surgiam no encontro entre as faces.

— Não basta que cada pedra esteja certa por si, é necessário que também se ajustem entre si — dizia um deles.

Ezra percebeu que, diferente dos golpes que retiravam material do bloco ou das medidas que eram corrigidas com uso do esquadro, do prumo e da régua, o uso da trolha era para a finalidade de unir. As pequenas falhas que eventualmente haviam nos blocos não eram ignoradas, nem deixadas expostas, mas com a argamassa eram trabalhadas até que o conjunto ficasse harmonioso, criando uma estrutura contínua com aqueles blocos que, de outro modo, permaneceriam sempre separados.

Durante o assentamento das pedras cúbicas, vira também que algumas pedras às vezes precisavam de alguns ajustes de medida e, usando uma régua graduada sobre as arestas, os companheiros podiam marcar os blocos e realizar as correções. Ezra lembrou das réguas lisas usadas pelos aprendizes e percebeu que lá ela era usada apenas para evitar um erro mais evidente, enquanto que aqui se buscava algo mais preciso.

Permaneceu mais um instante ali, até perceber que já tinha demorado além do necessário. Ele poderia ser descoberto. Pensou muito em como conseguir entrar no palácio, mas não havia lhe ocorrido como faria para sair. Sempre que via um dos vigilantes ou um dos mestres arquitetos se aproximando, tratava de ir para a direção oposta. Àquela altura já se preocupava em como sairia dali sem ser pego. Seguiu adiante palácio adentro, até uma parte mais elevada, procurando qualquer janela ou abertura pela qual pudesse sair do palácio. Subindo algumas escadas sinuosas, sentiu o ambiente mudar e percebeu que o ruído do tilintar das ferramentas diminuira. Viu-se dentro de uma enorme câmara que já estava nas etapas finais de ornamentação. Um grupo de mestres arquitetos trabalhava sobre uma superfície limpa com alguns instrumentos diferentes daqueles que normalmente via nos canteiros. Um deles inclinava-se sobre uma prancheta e, com um lápis, traçava linhas que constituíam mais alguns planos de execução da obra. Usavam também um compasso para, ao que lhe parecia, traçar os limites do plano que delineavam. 

— Nada se assenta antes que se trace.

Em seguida, o mestre tomou um cordel, fixou dois pontos e estendeu entre eles uma linha precisa, como que se desejasse verificar as proporções e limites daquilo que traçavam. Ezra percebeu que aqueles desenhos definiam exatamente o plano de trabalho que os companheiros deveriam seguir no soerguimento da obra.

Embora curioso, não podia se aproximar mais. Por um instante havia se esquecido de que procurava uma saída para escapar do palácio. Retornou pelo caminho por onde viera, e ao chegar no salão principal notou que os companheiros se preparavam para a pausa da merenda, e neste instante os portões estavam abertos para que saíssem para seu breve momento de sesta. Tão rápido quanto pôde, se colocou no meio do cortejo porta afora.

Ao deixar o palácio e voltar ao caminho que levava à pedreira, Ezra sentiu novamente o peso dos blocos sobre os ombros, como tantas outras vezes. O trajeto era o mesmo, o esforço não havia diminuído, e os homens ao seu redor seguiam apressados, como sempre fizeram. Ainda assim, algo lhe parecia diferente, embora não soubesse dizer exatamente o quê.

Ao depositar mais um bloco junto aos aprendizes, demorou-se por um instante, não para observar o trabalho dos outros, mas para olhar a própria pedra que trazia. Ajustou-a com as mãos antes de soltá-la, girando-a levemente até que se firmasse melhor sobre o chão, como se já não lhe fosse natural deixá-la ao acaso. Ninguém lhe pediu que o fizesse, e tampouco alguém pareceu notar, mas aquele pequeno gesto lhe pareceu, por alguma razão, necessário.

Retomou então o caminho de sempre, conduzindo novas pedras entre a pedreira e o canteiro, como sempre fizera. E, embora continuasse sendo contado entre os cowans, já não percorria aquele caminho com o mesmo olhar de antes.

29 de março de 2026. Autor: Irmão Dyogner do Valle Mildemberger